O Rouba Livros

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 Quando criança vivia com uma velha.

A boa velha, pobre como era, pôde dar-lhe, em sua primeira infância, uma folha com ilustrações que achou em alguma esquina onde mendigava.

Esse foi o seu primeiro contato literário.

Mendigava também naquela região um velho, que testemunhou o gesto da mulher e a alegria da criança. E que, vendo isto, chorou.

Fora em outros tempos um respeitado homem de negócios e teve boa fortuna até fazer um investimento mal calculado.

Tomado de compaixão pôs-se a observá-los: viu os carinhos e cuidados que a velha dispensava ao bebê e de uma forma curiosa percebeu que a alegre criança não rasgava o papel e, durante três dias, interpretava a sua maneira as ilustrações da folha recebida.

Ao final destes três dias, enquanto a criança estava entretida com os textos e figuras de seu valioso papel, a velha sentiu-se mal, inclinou-se e o velho correu a socorrê-la, mas não resistiu e faleceu ali.

De dentro de um velho carrinho de mercado, onde sempre brincava, a criança parou de brincar e passou a observar o quadro a sua frente: a velha de olhos fechados nos braços do estranho que o mirava seriamente.

Como se tivesse entendido o que se passava, sentou-se sorumbático e ficou a olhar a folha ilustrada que recebera da velha.

Daquele dia em diante, o carrinho de mercado era conduzido a qualquer lugar com o menino e algumas tralhas pelo velho homem. Outro fato que se deu é que nem o menino e nem os mendigos da região souberam dizer o nome da velha. Por esse motivo não puderam guardar nenhuma informação sobre a velha mulher ou sobre a origem e nome do menino... .



Toda revista, livro e até manual que achava, limpava e dava ao menino.

Passado algum tempo, sentindo-se cansado dos anos, preocupou-se com o menino, que já estava com seis anos e vendo que não possuía nada para deixar-lhe, caso lhe acontecesse algo, decidiu dar-lhe a única coisa que lhe restou, um pouco de cultura. Passou a ensinar a criança a ler, como o menino gostava das imagens e das letras, aprendeu rapidamente.

O velho lhe disse um dia: “nesta vida tudo é passageiro, o dinheiro, os bens, os anos e até a saúde. Veja, todos me abandonam, menos a cultura e isso lhe dou”.

Dito isto, passou a falar-lhe dos lugares, dos sábios, dos filósofos e dos simples, falou sobre as invenções, das doenças e curas, do corpo e do comportamento humano, falou também de guerra e de paz.

Passava o tempo, e não se cansavam. O velho de ensinar sobre os mecanismos do mundo e o menino de aprender. E quanto mais aprendia o aprendiz, mais sede tinha de conhecimento.

Na adolescência voltava pelo final da tarde ao ferro velho, onde agora dormiam. Quis mostrar ao velho o que figurava naquele papel que guardara como último vínculo em sua lembrança com a velha. Naquela tarde também o velho sentia-se demasiadamente cansado e planejava dizer seu nome e dar-lhe um também, pois passou todo esse tempo apenas chamando-o de menino e sendo chamado de velho. Ao aproximar-se o jovem aprendiz da caçamba emborcada de um velho caminhão sob onde dormiam, disse que chegou e trazia comida da feira ao velho, o velho lhe disse que queria falar-lhe algo importante, porém o seu aprendiz precisava achar o livro onde guardava seu valioso papel.

O velho disse que se apressasse, porém demorou-se mais um minuto. Quando achou o livro, foi ter com o velho de dias e foi logo dizendo: “acorda que quero que leia o que minha mãe me deu quando eu ainda era um bebê”. Vendo que o velho não acordava, sentiu a mesma sensação que tivera no dia que a velha falecera, entendeu que seu amigo deixou a vida. Silenciou, sentou-se no chão, abaixou a cabeça a mirar o papel e dando-se conta de que não sabia o nome do velho, chorou até dormir.

Ao acordar viu o falecido sentado em sua poltrona mofada e com um último olhar, despediu-se e foi para uma praia distante meditar.

Não se preocupava com o sepultamento do velho, pois sabia que a própria morte se encarregaria de seu sepultamento, assim como se encarregara do sepultamento da velha mulher.

Aos 14 anos de idade, procurou organizar seus pensamentos e decidiu andar pelo mundo. Como lera todos os livros, revistas e manuais que ganhara desde os seus seis anos de idade, procurou achar alguma literatura pelos lixos do caminho. Chegando ao centro de uma cidade distante e não achando nada, aproximou-se de uma vitrine de livraria, viu muitos livros e pôs-se a ler os títulos. Viu ali, novos autores de que nunca ouviu falar, pois conhecera apenas os clássicos gregos, alemães, franceses, luso-brasileiros e literaturas mais famosas. Interessou-se por um livro chamado “As Línguas do Mundo” de um autor chamado Charles Berlitz, mas não pôde comprá-lo.


Um veículo estacionou próximo à livraria e um jovem saiu de dentro dele com um celular tentando baixar, sem sucesso, um arquivo PDF de um livro que usaria brevemente. Neste mesmo momento a senhora que gerenciava a livraria, vendo o sujo rapaz, deu ordens para afastá-lo, pois estava sujando a vitrine com suas mãos.



Ao se afastar, percebeu que o jovem dono do carro fazia algumas tentativas frustradas no celular e perguntou o que pretendia. Entretido, respondeu, sem olhar, que queria baixar um livro de robótica e não conseguia. O sujo rapaz disse que podia ajudá-lo e imediatamente o jovem aceitou a ajuda. Somente após dar o celular é que percebeu que se tratava de um pivete. Procurando livrar-se daquela situação disse que não se preocupasse e que seria melhor comprar o livro, mas o pivete disse que seu problema estava resolvido, deu uma explicação rápida sobre velocidade de redes acessíveis de celular e que ao trocar a rede, o arquivo fora baixado rapidamente para o seu celular.

O jovem olhou-o curiosamente e resolveu oferecer-lhe um lanche, mas o pivete não aceitou, pois aprendeu com seus velhos a comer apenas o necessário e raramente sentia fome, porém disse que preferia um livro que viu na vitrine.  Ainda mais intrigado ficou o jovem que resolveu comprar-lhe o livro.

Apresentou-se como Lúcius e grande foi a sua surpresa quando o pivete respondeu que não sabia seu próprio nome. Foi neste momento que o pivete percebeu que não tinha nome e envergonhou-se.

Despediram-se e Lúcius seguira para a reunião que teria com colegas universitários. Mas naquela noite não pôde contribuir com as pesquisas, pois ficou intrigado com o pivete que era tão pobre que não tinha nem um nome. Os colegas estranharam seus pensamentos ausentes, pois Lúcius era um estudante brilhante, sempre com boas notas e que exercia grande influência entre seus conhecidos.

O pobre rapaz caminhava satisfeito com seu primeiro livro novo enquanto saboreava páginas com um aroma que nunca tinha sentido, aroma de livro novo. Amante como era da leitura, adquirira hábitos como ler vários livros durante o mesmo período, ler andando, ler a distância, ler com pouca luz e a leitura rápida das páginas, pois não interpretava palavras como outras pessoas, interpretava frases inteiras de forma que quando chegou a uma praça iluminada já havia lido um quarto do livro, no capitulo XIII, leu o título “sobrevivência das línguas e através das línguas” e lembrou-se de sua velha e das palavras de seu velho mestre.

“Nesta vida tudo é passageiro, o dinheiro, os bens, os anos e até a saúde. Veja, todos me abandonam menos a cultura e isso lhe dou”.

Agradeceu em seus pensamentos a sorte que teve na vida em ter como pais os seres mais valiosos do mundo e continuou a sua leitura.

Ao terminar de ler aquela interessante obra adormeceu no banco da praça.

Ao acordar teve a ideia de voltar à livraria para tentar trocar o livro. Ao passar pela mecânica, viu um veículo Mercedes Benz MB 280S recebendo uma pintura incompatível com seu modelo. Chegando a livraria percebeu que não seria simples tal troca, pois ao interpretar o movimento do perímetro, viu um guarda a trinta passos da livraria, um casal entrando e a senhora da livraria o mirando seriamente enquanto falava algo com um de seus funcionários. Como sabia ler lábios, viu que a senhora dizia que não o deixassem se aproximar mais, isto é, que chamassem o guarda caso o pivete se aproximasse. Teve a ideia de orientar o lanterneiro com a fórmula exata da tinta e pedir-lhe em troca que o ajudasse na livraria. Então se dirigiu ao lanterneiro, mas este o vendo sujo como estava e com um livro novo na mão, interpretou que ele roubou o livro e que queria também roubar-lhe alguma ferramenta.

Lúcius não dormiu na última noite, de fato ficou impressionado e pensou em reencontrar o pivete. Estacionando próximo à livraria, viu um alvoroço e o guarda algemando o pivete.

Lúcius explicou que tudo não passava de um mal entendido, pois comprara o livro e tinha a nota para provar. Além disso, a senhora o reconhecera.



Desfeito o mal entendido, o pobre rapaz disse que apenas queria que alguém trocasse o livro para ele. Lucius disse-lhe que ele parecia bem interessado no dia anterior pelo livro e agora não entendia por que não o queria mais.

Lucius ficou literalmente paralisado quando o pobre rapaz lhe disse que tinha de fato gostado do livro, prova disso é que o leu totalmente e queria trocá-lo por outro, pois não tinha o que ler agora.

Depois de trinta segundos completamente confusos, Lucius resolveu convidar-lhe para uma lanchonete e lá lhe disse que queria ver o livro. Lúcius abriu aleatoriamente o livro e este se abriu na página duzentos e noventa e seis. Ele leu um trecho, onde informava que Faraó afirmava o seguinte: que se ninguém ensinasse uma criança a falar, esta, quando aprendesse a falar, expressar-se-ia pela língua original da humanidade. E perguntou-lhe qual o idioma que foi dito por uma das crianças submetidas a um ambiente isolado durante dois anos. O pivete respondeu que uma das crianças teve fome e pediu pão em Cintio, idioma que era falado em uma região que hoje é a Ucrânia. O inocente pivete ficou esperando um complemento de raciocínio qualquer, mas Lúclius perguntou-lhe em seguida qual a escola que havia estudado e ouviu então que o sujo leitor nunca havia entrado em uma escola.

Lúcius emocionou-se por um momento, mas conteve-se e disfarçou dizendo que esta era uma boa ideia, pão... Já era hora de pedirem algo a garçonete para comer.

Durante o lanche, Lúcius olhava intrigado para o sujo leitor.

O sujo leitor comeu pouco e pensava apenas na troca de seu novo livro.

Lúcius disse que se tivesse alguma literatura lhe daria, mas possuía apenas livros técnicos, pois tudo que comprava era para entender melhor a robótica. Tomado de interesse, o sujo leitor disse que lhe serviria bem tais livros.

Então o estudante não comentou com ninguém sobre o notável rapaz e durante vinte e nove dias Lúcius concentrou-se no trabalho da faculdade: a construção de um robô. Encontrava-o sempre na praça, oferecia-lhe um lanche e dois livros. Achava estranho o seu marcador de livros, uma folha velha com alguma ilustração que ele não trocava por nenhum outro marcador.

Ao final deste período, Lúcius disse-lhe que os livros que agora possuía eram de seu atual uso na faculdade, mas que tinha uma ideia.

Ele mesmo entraria na livraria com o livro lá comprado e o trocaria sem que ninguém percebesse. O sujo leitor disse-lhe que era melhor ele falar com alguém, pois poderiam achar desonesta a sua atitude. O rapaz disse-lhe que não teriam nenhum prejuízo e que alguém acabaria comprando o livro deixado.

Em comum acordo, Lúcius perguntou o que lhe interessaria e ele disse que nunca havia lido as obras de Shakespeare. Dito isto, a operação na livraria foi um sucesso e Lúcius trouxe-lhe “Contos Shakespearianos”.

Naquela manhã o sujo leitor aprendeu que poderia trocar um livro novo já que não causaria prejuízo algum com este ato e, satisfeito, expressou a seu novo amigo que gostaria de dar-lhe algo, mas não tinha consigo posses. Perguntou, então, a Lúcius como ia seu trabalho com o Robô. Lúcius lamentou as intermitências de suas experiências. Timidamente o sujo leitor disse-lhe que se não se importasse em recebê-lo em sua garagem, poderia ajudá-lo em sua pesquisa.



Lúcius gostou tanto da proposta que seguiram até a garagem onde se encontrava seu projeto, deu-lhe uma mangueira d'água, um sabonete e xampu para lavar-se ali mesmo. Já com roupas novas, pareceu uma pessoa decente aos olhos de Lúcius.

Comeram algo e, agora limpo e alimentado, ao ver a placa mãe disse que havia uma incompatibilidade na velocidade das memórias e explicou a Lúcius algo sobre nanossegundos.

Ao substituir as memórias, o robô passou a funcionar perfeitamente, ele reagia aos movimentos, toques e sons.

Satisfeito Lúcius deu nome ao robô. Chamou-o de Pedrinho e disse ao seu amigo que poderia dormir ali naquela noite. O limpo leitor invejou o robô que recebeu um nome. Por este e outros motivos decidiu que deixaria a cidade pela manhã para viajar o mundo. Lamentaram e concordaram ao final com esta decisão.

Em seu quarto, Lúcius pensou que talvez devesse dar um nome a seu novo amigo e pensando nisso adormeceu. Já na garagem, seu novo amigo divertia-se no aperfeiçoamento do equipamento, acoplando a um recurso que permitia o robô acessar a Internet e utilizar o banco de dados do Wikipédia (uma mega enciclopédia online), deu-lhe seu próprio timbre de voz e fez ajustes graciosos em seus movimentos.

Lúcius acordou bem cedo e, além da ansiedade por ver o seu robô em ação novamente, teve a certeza de que dar nome ao seu novo amigo seria a atitude correta. Pensando assim, seguiu para a garagem.

Chegando à garagem, pareceu ouvir o seu novo amigo saudar-lhe e deu-lhe a boa notícia de que tivera a ideia de dar-lhe um nome e mesmo sem ver-lhe ouviu-o responder que já tinha um nome e era Pedrinho. Só então percebeu que quem lhe falava era o robô, seu amigo não estava mais ali e ele chorou.

Ao apresentar o Pedrinho a seus mestres, Lucius surpreendeu-se quase tanto quanto seus professores ao ver a sabedoria e os movimentos graciosos do robô. Não descobriram, naquele dia, que a grande inteligência do robô vinha do acesso a um site na Internet.

O jovem rapaz deixou a garagem com uma maçã, um livro novo e com boa aparência. Procurou manter-se assim, pois agora seria mais fácil aproximar-se das pessoas. O fato é que as pessoas ficavam bem satisfeitas ao conhecê-lo nos primeiros cinco minutos e ele aprendeu que, em suas satisfações, as pessoas tornavam-se prósperas.

Bem, Lúcius formou-se, criou projetos interessantes e decidira localizar seu amigo. Sentia como se procurasse a um irmão perdido.

Contratou detetives, hackers e informantes do submundo, mas ninguém o achava. Não sabiam como procurar alguém que não tinha um nome.

Passados alguns anos, o próprio Lúcius saiu em viagens pelo mundo para localizar seu amigo.

Num hotel, observava os passantes e ao avistar uma livraria resolveu circular até lá. No caminho, viu um jornaleiro e resolveu fazer-lhe algumas perguntas. Queria saber se ele avistara um rapaz magro com algum livro na mão, moreno claro, de cabelos castanhos, meio compridos e que nunca sorria.

Esta última característica chamou-lhe a atenção. Lembrou-se de um rapaz que roubou-lhe um livro de Dante, mas existem tantos estudantes com essas características naquela região, que o próprio jornaleiro achou improvável ser a mesma pessoa.



Vendo alguma possibilidade de ser seu amigo, disse ao jornaleiro que este assunto lhe era muito caro. Perguntou se ele se lembrava de mais algum detalhe e o jornaleiro respondeu-lhe que não se esquecera do jovem, porque ele também esqueceu um livro naquele dia.

Lúcius pensou alto, “ele não esqueceu, era uma troca”. Perguntou imediatamente quando se deu o fato. O jornaleiro disse que há uns três meses.

Enobrecido com sua primeira pista, comprou um jornal e voltou ao hotel. No caminho, pensou se ele deixaria sempre esta forma de rastro: a troca de livros por onde passasse.

Depois de um banho quente relaxou na poltrona, dormiu ali mesmo, sem se dar conta de que havia um artigo no jornal sobre desaparecimento de livros em faculdades.

O compulsivo leitor assimilava quatro ou sete livros por dia e possuía, ao passar destes anos, vinte e dois livros novos que mal lhes serviam para quatro dias. Assim, de três em três dias, procurava caminhos de trocá-los por obras ainda não conhecidas.

Um dia, ele desativou o alarme, abriu as fechaduras de uma livraria e pôs-se a ler, digo, a caçar os títulos, pois foi se dando conta de que já havia lido cada livro que olhava e assim não encontrou nenhum título novo. Frustrado, fechou as trancas, religou o alarme da livraria e saiu dali preocupado.

Nesta mesma madrugada, penetrou em uma das bibliotecas de outra universidade e, com dificuldade, substituiu seus vinte e dois livros.

Ao terminar de assimilar "Os Lusíadas" de Camões se deu conta da dificuldade que vinha tendo de encontrar livros. Teve, então, a idéia de aprender outro idioma, assim, localizaria novos escritores. Não encontrando saída para seu problema, escolheu a Índia, agora precisaria aprender Inglês e as variações do Híndi.

Deu um jeito de conseguir manuais e dicionários de Inglês, mas não encontrava nada sobre Híndi e nisto passou a dedicar-se ao idioma britânico. Antes de iniciar sua nova viagem, achou que o consulado da Índia pudesse ter as respostas de que precisava, havia ali o projeto de um curso interno de hindi. Ouvia o curso do lado de fora da janela, mas não entendia o método explicativo do professor. Bem, viu ali uma bela biblioteca sobre culturas e idiomas da Índia. À noite, trocou seus livros de inglês na biblioteca do consulado, pois já os havia assimilado.

Com os livros sobre Híndi viajou.

Quando Lúcius chegou ao consulado, foi informado que houvera um roubo na biblioteca. Disse o cônsul que levaram vinte e dois livros raros e que deixaram na bancada vinte e dois manuais de inglês.

Sabia agora onde procurá-lo. Índia...  Sua vida estava se tornando uma aventura.

Pegou um avião e seguiu para Índia.

Tinha dificuldades em dialogar com os indianos e procurava fazer-se entender através de gestos e de seu Inglês ainda precário.

Sempre que compreendia qualquer comentário sobre livros desaparecidos, seguia o mais rápido possível para o local em questão.



Já compreendendo algumas expressões do hindi, escutou essa junção, “rouba livros”. Procurando saber do que exatamente falavam, entendeu esta mistificação entre aqueles indianos, alguns expressavam que se tratava de um espírito que adorava livros e os comia, já outros afirmavam que o espírito odiava livros e por isso os devorava.

Como a crença cresceu entre os indianos, Lúcius passou a procurar pelo Rouba Livros. Desta forma chegava rapidamente ao rastro do suposto espírito devorador de livros.

Sabendo que o Rouba Livros encontrava-se nas adjacências, criou um plano que parecia infalível. Desta vez acharia seu amigo e o levaria para casa, livrando-o de uma possível prisão e suas consequências.

Alugou um estabelecimento, onde fora uma marcenaria. Encontrando ali muita madeira, cortou-as em pequenos formatos e pintou-as sugerindo a idéia de livros em prateleiras. Anunciou na rádio local e nos carros de som a inauguração de uma livraria e que haveria ali uma exposição de livros raros ainda não lidos, durante todo o final de semana.

Acreditando no sucesso de seu plano, preparou-se, naquela mesma noite, para o reencontro com o seu considerado irmão.

E foi o que aconteceu, digo, de fato ele foi.

Lúcius, escondido como estava, enxergava bem a porta de entrada e as janelas. Sabendo que ele era capaz de passar por alarmes e fechaduras, teve o cuidado de fechar portas e janelas.

O ambiente estava à meia luz. Viu uma das janelas movendo-se lentamente e um espectro passar veloz por ela. Lucius não teve dúvidas e desceu rapidamente identificando-se, dizendo que os livros eram falsos.

O Rouba Livros assustou-se ao vê-lo e sorriu, recompondo-se do susto.

Lúcius confessou que errara quando o deixara ir, pois agora sabe que são como irmãos.

O Rouba Livros agradeceu este presente, pois tinha ganhado na vida uma mãe, um pai e agora um irmão.

Lúcius lembrou e disse-lhe que no dia que se separaram teria lhe dado um nome se não o tivesse deixado tão cedo. O Rouba Livros lamentou e disse-lhe que talvez fosse isso que procurava todo esse tempo... .

Mas a própria vida encarregou-se de dar-lhe um nome. Era agora, para os indianos, um espírito devorador de livros e às vezes o era até para ele próprio.

Lucius disse-lhe que não precisava mais viver assim e que poderiam ir para casa agora, mas seu irmão disse que a vida encarregou-se disso também e que o mundo era sua casa. Além do mais, um só país tinha livros insuficientes para ele.

Lúcius sabia que seu irmão, apesar de simples, tinha um conhecimento imensurável.

O Rouba Livros disse que partiria pela manhã, pois havia consumido toda literatura indiana. Aprendera japonês, pois soubera que no Japão havia conteúdos milenares guardados pelo governo e entre clãs.

Dissera ao Lúcius que o mundo e as pessoas são mais simples do que parecem e deixou-lhe seu bem mais precioso antes de desaparecer de sua presença.

Lúcius sentiu-se solitário e sabia que não poderia sequer compreender as palavras de seu irmão, que o homem mais brilhante que conhecera tinha como relíquia uma folha de papel suja.

Tomado de curiosidade repentina, procurou identificar nas ilustrações o que tornava aquele papel tão precioso.

Lúcius ao interpretar o que viu, chorou.

Tratava-se de um velho folhetim com o final feliz da fabulosa história de um antigo escritor italiano chamado Carlo Collodi, “As Aventuras de Pinóquio”.

A ilustração retratava o momento em que Pinóquio deixa de ser um boneco de madeira transformando-se em uma pessoa de verdade.

 

Bsal

 

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