Além da Montanha

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Cavalo em fusão com nuvem

 

Nesse dia que parecia um dia comum, bem cedo, pus-me a observar a montanha e percebi que as nuvens lhe forravam abaixo de seu pico e em seu torno. Foi uma visão única.

 

E o sentimento que me dominou também foi único, simplesmente tinha que subir aquela majestosa montanha.

 

Foi assim que tudo começou: acordei, bebi um copo d’água, aproximei-me da janela e ao sul da paisagem vista, foquei a montanha e no minuto seguinte estava indo ao seu encontro.

 

Sentia-me arrebatado. Durante o caminho do bosque, pois a montanha ficava pouco após o bosque e era necessário atravessá-lo, me surpreendi em pensamentos fixos enquanto uma coruja sobrevoava-me, eu pensava em alcançar o cume de qualquer forma, não permitiria ser impedido por nada e pensava que seria prático se fosse a cavalo, um cavalo forte e veloz de preferência, mas o fato é que continuaria a jornada a pé. Ao menos tinha a companhia desta curiosa coruja que eventualmente pousava pelas árvores do caminho e parecia observar-me.

 

Ao chegar aos limites da montanha, podia sentir o gelo das nuvens. Alegrei-me com isso e fortaleci-me, passei rapidamente pela subida de barro e alcancei as primeiras rochas, fiz isso correndo a uma velocidade média. Nestas rochas havia uma árvore que, com a minha chegada, vi pousar ali a amistosa coruja. E também havia ali uma pequena caverna que dava para uma bela vista. Ao norte via minha janela; ao leste via o sol; ao oeste via o mundo e ao sul, bem a montanha me impedia de ver além dela e o nevoeiro me impedia de ver a própria montanha. Fui breve, deixei as primeiras rochas, a coruja e obstinei-me em direção ao mato extremamente alto, entrei por uma suposta trilha que me impedia a velocidade e a orientação.

 

Esbaforido, encharcado de suor e água do nevoeiro, tive a impressão de que o bosque, as rochas e o matagal guardavam a montanha, caminhava lento, meio sem ar e com esforço pelo matagal, estaria desorientado se não soubesse que este caminho é sempre de subida.

 

Estava meio que delirando e fechei os olhos, inspirei profundamente, oxigenando o cérebro e os pulmões. Foi ai que descobri algo incrível. Esse dia não tinha nada de comum.

 

Ao alcançar uma pequena planície aproximou-se de mim um belo ²equino, um espécime onipotente, raro.  Eu sabia que devia montá-lo. Mesmo na minha pouca força, o montei com ímpeto, segurei forte suas crinas e cavalguei-o rumo ao cume da montanha. Sua força era incrível, mas sua velocidade mesmo nos aclives acentuados da montanha parecia aumentar a cada galope, saltava sobre as rochas e quando eu solicitava velocidade, ele corria ainda mais. Então percebi que éramos livres.

 

Estava claro agora, este formidável animal era uma dádiva de um desejo concedido, sem testemunhas, somente eu compreendia e ainda assim nem imaginava o que estava por vir.

 

Ao vazarmos a última nuvem do nevoeiro, pude ver o cume da montanha e uma nuvem que ainda escondia o sol. Esta grande nuvem passava próximo ao cume da montanha, quando Sublime, como passei a chamá-lo, em galopes crescentes fez-me entender que deveríamos alcançar o pico da montanha antes da grande nuvem passar completamente.

 

O vento feria-me com mais veemência os olhos e tive a impressão de estar vendo sair fogo ou faíscas dos cascos de Sublime. Abaixei ao máximo que pude com a intenção de colaborar no aumento de nossa velocidade e finalmente alcançamos o cume, quanto a nuvem, passava rápido demais e parecia que não chegaríamos a tempo de alcançá-la.

 

Já na última rocha do pico da montanha, vi surgir os primeiros raios de sol pelas extremidades da nuvem que encerrava sua passagem. Um frio e uma nova pressão surgiram em mim quando Sublime saltou como um raio além da montanha, como se fosse possível encontrar firmamento na nuvem.

 

Surpreendentemente não atravessamos a nuvem e como se isso não fosse o suficiente cavalgávamos por ela. A sensação de se cavalgar por uma nuvem é impossível de se por em palavras, mas se for possível, é como estar em um belo sonho que reserva de repente armadilhas e nem por isso deixa de ser belo e é como caminhar em intensa e abundante vida, enquanto a morte se abre inesperadamente diante de tudo isso.

 

Galopar nas nuvens deixou Sublime ainda mais veloz e ágil, quando a nuvem abria buracos diante de nós, saltávamos com destreza até ao ponto que se rasgou diante de nós. Neste momento veio-me a compreensão de que tudo aquilo não podia estar acontecendo, claro que era impossível. Bem, ao rasgar-se a nuvem diante de nós, não nos sobrou opção, salvo uma última tentativa, alcançar outra nuvem que passava distante. E Sublime saltou em seu mais potente salto para alcançá-la, porém eu, agora diante do impossível, duvidava. Sublime indo contra todas as impossibilidades alcançou a distante nuvem e eu tive medo. De fato não havia firmamento ali e caímos.

 

Estava meio que delirando, fechei os olhos, inspirei profundamente oxigenando o cérebro e os pulmões. Foi ai que descobri algo incrível. Esse dia não tinha nada de comum.

 

E ao abri-los estava só na pequena planície, tudo não passou de um delírio, pelo que parecia.

 

Ainda estava exausto quando vi também um majestoso cavalo aproximar-se, era Sublime! Ao vê-lo veio-me à lembrança a visão que tive e sabia que se o montasse, viveria a maior e inexplicável aventura de minha vida e por fim uma extraordinária morte.

 

Bem, na minha pouca força o montei com ímpeto.

 

 

Bsal

 

 

¹ E agora, põe o trema ou não? Façamos assim, eu escrevo tranquila, mas você não fala trankila, você fala tranqüila tá.
² Mesmo raciocínio da observação ¹

 

 

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