1ª Bienal Caracol

Alunos da Educação Infantil promovem a própria Bienal de Artes.

Júlio Cordeiro / Agencia RBS

Iniciativa da Escola Caracol, de Porto Alegre, colocou crianças em contato com o trabalho de artistas do Brasil, da Europa e da África.

Em tom de confidência e orgulho, Isabela Noschang enumera os materiais que usou para construir sua obra, um violão colorido e cheio de estilo: 

— Peguei com meu pai uma garrafa de água sanitária, mas não usei a tampa, usei papel também. Depois, pintei tudo. Gosto de usar tinta.

A aluna de cinco anos do Jardim B da Escola de Educação Infantil Caracol, de Porto Alegre, é uma das "artistas" participantes da 1ª Bienal Caracol, exposição inaugurada ontem como o ápice do Projeto Pintores, iniciativa da instituição que explora a arte como recurso pedagógico e que, neste ano, consolidou-se em abril, com a visita das crianças à 11° Bienal de Artes Visuais do Mercosul. 

Aproveitando o tema do evento internacional — O Triângulo Atlântico (que discutiu os laços que interligam América, África e Europa há pelo menos 500 anos) —, as turmas produziram suas próprias peças, depois de serem estimuladas a observar a produção de outros artistas, além daqueles que participaram da Bienal. Os alunos demonstraram afinidade e conforto frente ao desafio de explorar o trabalho artístico de nomes como o uruguaio Daniel Barbeito, os brasileiros Flávio Freitas e Surama Caggiano, e o africano Ibrahim Mahama. 

Para encarar a empreitada, os professores e a coordenação da escola participaram do Programa de Formação de Educadores Paraíso Paradoxo, oferecido pela organização da 11ª Bienal, de onde germinou a ideia de promover uma exposição com os alunos. O envolvimento e interesse das crianças pelas atividades reforçaram a crença dos educadores de que a arte é um estimulante precioso ao desenvolvimento intelectual.

— Arte e infância têm tudo a ver. Pela arte, conseguimos desenvolver todas as capacidades cognitivas das crianças, e a gente percebe o envolvimento e o respeito delas pelo artista e pelas diferentes formas de expressão — celebra uma das coordenadoras pedagógicas da Caracol, Deise Lunardi em meio aos trabalhos.

Quatro meses de trabalho e descobertas

Ao longo de quatro meses, as turmas do Jardim B colocaram a mão em tintas, colas e materiais recicláveis. Os pais também foram instigados a mergulhar na aventura de desbravar a produção dos artistas escolhidos, que foram procurados para temperar a experiência e conversar com as crianças pela internet. Os menores, do maternal, também fizeram sua instalação, aproveitando brinquedos e bonecos, remetendo a uma das obras de Ibrahim Mahama apresentadas no Santander Cultural.

Professora de uma das turmas do Jardim B, Drica Verardi confessa que teve receio de que os alunos se apegassem a releituras, preocupados em fazer seus trabalhos idênticos aos dos artistas, mas foi surpreendida pela forma como os estudantes absorveram a tarefa.

— Eles falaram muito mais das emoções ao desenhar e pintar do que propriamente de como ficaria o que iriam produzir. Era o sentido ao reler a obra — disse a professora, emocionada com os resultados.

O nome e o trabalho dos artistas eram desconhecidos pelas crianças até então. Na algazarra que antecedeu a inauguração da Bienal, no entanto, Barbeito, Surama e Ibrahim já ressoavam nas conversas infantis como nomes bem familiares, e a memória de figuras recorrentes na obra deles revelava preferências. Teve gente que até se aproximou mais do universo das artes visuais. Inácio da Costa Peres, cinco anos, conta que nem gostava tanto assim de arte, mas começou a se interessar com as atividades na escola. Em férias com a família pelo Uruguai, pediu aos pais para visitar Colônia do Sacramento, terra de Daniel Barbeito, e recorda eufórico que chegou a reconhecer de tampa uma obra do uruguaio. 

Colega de Inácio, Gustavo Abraham, cinco anos, pintou gatos e abusou das cores no trabalho que produziu. Encabulou-se quando foi convidado a mostrar sua obra, mas retomou a espontaneidade quando indagado sobre o quanto gostava de arte.

— Gosto infinito e além — disparou.   

 

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