Obras Sacras Decoram Igrejas

Obras sacras de esloveno e de seu sobrinho decoram igrejas da região.

A região de Bauru tem um acervo de painéis de obras sacras de dois pintores-decoradores de igreja que ainda falta um estudo acadêmico aprofundado. Nos últimos anos, esses painéis começaram a ganhar visibilidade na imprensa com a restaurações das imagens nas igrejas de Iacanga e Guarantã. O mais interessante é que são dois artistas com vasto acervo no Interior paulista e nos Estados de Minas Gerais e Paraná. A obra do esloveno Franciscus Pavlovic e do sobrinho dele, Alberto Pavlovich (no registro foi acrescentado o ch), está em pelo menos 10 igrejas, mas se incluir fora da região há mais 11 afrescos e painéis instalados em templos católicos de outros municípios de estados vizinhos.

Franciscus nasceu em Postonja (Eslovênia) em 29 de outubro de 1892 e estudou pintura na Escola Superior de Artes Aplicadas em Viena, na Áustria. Serviu na 1.ª Guerra Mundial, quando foi capturado e preso pelo exército russo. Mantido em campo de concentração por dois anos, pintou vários quadros para oficiais e generais russos, o que lhe garantiu um tratamento diferenciado, de acordo com o jornalista de Avaré Gesiel Júnior.

O esloveno veio para o Brasil em 1923 e estabeleceu inicialmente residência em Pirajuí, depois Cafelândia, mas passou um período em São Paulo, Lins, até falecer em 1978, em Oriente.

Durante esse período deixou uma extensa obra em igrejas da região como no Distrito de Aparecidinha, pertencente ao município de São Manuel, Avaré, Cafelândia, Guarantã, Marília e Pirajuí.

O sobrinho dele, Alberto Pavlovich conheceu a obra do tio aos 7 anos e seguiu na carreira artística desde quando viu os primeiros desenhos do parente esloveno. "Ao ver os desenhos sendo feitos na igreja de Pirajuí, meu pai contou que ficou extasiado", relembra o professor aposentado da Unesp Leonardo Pavlovich, que vem copilando o acervo, fotos e esboços dos projetos.

Nos escritos deixados por Alberto, ele contou que abandonou o trabalho de fotografia quando pediu ao tio, Franciscus, um trabalho de auxiliar de pintura. Dali aprendeu o ofício e depois seguiu sua carreira na área.

Na região, a obra de Alberto está nas igrejas de Iacanga (recém-restaurada), Barra Bonita e na Igreja Santa Therezinha de Bauru, mas ele tem afrescos em Irapuã, Potirendaba, Araxá (MG), Sabáudia (PR), Rolândia (PR). Leia mais nas páginas 18 e 19

Sobrinho aprendeu pintura com o tio

Em folhas de papel manuscritas, deixadas pelo pintor Alberto Pavlovich, trazem relato de sua infância aos 8 anos quando viu pela primeira vez o tio, Franciscus Pavlovic, desenhando homens, bichos e árvores num papel. "Fiquei de boca aberta. Aquilo me chamou tanto a atenção que eu não largava mais, apesar de não entender nada do que ele falava", relata o artista numa espécie de autobiografia.

O Franciscus é esloveno, irmão do pai de Alberto, que veio da Iugoslávia (país que existiu na Região dos Bálcãs na Europa, durante a maior parte do século XX, até a dissolução nos anos 1990 e onde fica a Eslovênia). 

Nascido em 8 de setembro de 1915 no município de Pirajuí, Alberto teve um irmão gêmeo que faleceu aos seis meses. A sua infância foi na zona rural, onde ficaram marcadas as imagens bucólicas, do tipo o padre chegando a cavalo para visitar a propriedade, a de uma cozinha em que ele via uma mulher mexer numa grande panela, a grande quantidade de borboletas coloridas e a paisagem de um trio ladeado de campos, árvores bonitas e troncos velhos ainda de pé. Lembra por exemplo dos período que por aquele trio de bela paisagem descia acompanhado da mãe para lavar a roupa em um córrego.

Isso ficou marcado na memória de Alberto. "Certas tardes eu ficava um tempão, olhando maravilhado as mudanças de cor e formas das nuvens. Enquanto meus irmãos trabalhavam na roça, meu pai era contratado para formar cafezais nas fazendas", registrou as primeiras impressões o pequeno Alberto que vão marcar a vida do artista.

Devido a essas imagens, ainda garoto ele se divertia fazendo risco com pau no chão do terreiro. "Para mim riscar e fazer, é o mesmo que hoje, desenhar e esculpir".

Após entrar na escola, em 1924, descobriu que o atividade do tio era ser pintor. Diante disso, chegava a faltar as aulas para ficar perto de Franciscus para ver que como ele fazia os desenhos. "Daí para diante fiquei sabendo que meu tio era pintor. Então passei a querer ser pintor, mas meu tio mudou para outra cidade, muito longe. Me deu uma grande tristeza".

Alberto chegou a trabalhar na casa paroquial, onde facilitou a ele estar mais perto das pinturas da igreja. Nesse período passou a ler histórias de pintores impressionistas como Vicent van Gogh, Rembrandt e Michelangelo. "Para mim eram como se fossem deuses," cita em trecho do texto deixado pelo pintor.

Alberto trabalhou um tempo como fotógrafo, mas a profissão não agradava quando tinha 29 anos e já estava casado. Foi quando pediu para ser ajudante de Franciscus e chegaram a trabalhar juntos em pinturas de igreja. Mas cada um tomou um caminho, porém na decoração de igrejas. 

Esloveno veio para Pirajuí

O esloveno Franciscus Pavlovic veio para o Brasil aos 31 anos em 1923 após receber cartas de seu irmão Luiz Pavlovic e fixar residência em Pirajuí. O artista fez a decoração de várias igrejas da região de Bauru, algumas vezes desconhecida, porque ele não deixava a assinatura nos painéis.

Especialista em arte sacra, Pavlovic divulgou no País a profissão de pintor-decorador de igreja, aprendida com mestres europeus, segundo o historiador de Avaré Geisel Junior.

Em sua carreira, Pavlovic decorou internamente treze igrejas, doze delas situadas no Interior paulista e uma no Paraná.

Na região, fez painéis para o Santuário de Aparecida, em São Manuel, afrescos no interior da igreja Matriz de Avaré, escultura em cimento em Cafelândia, painéis na Matriz de Guarantã, painéis na igreja de Pirajuí e no Colégio Sagrado Coração de Marília. As outras obras são em igrejas de Araras, Birigui, Descalvado, Matão, Pirassununga e Rolândia (PR).

Em Avaré, na nave principal do altar da Igreja Matriz "Nossa Senhora das Dores" há um dos mais belos trabalhos. De acordo com Geisel Jr., em abril de 1942 o padre Celso Diogo Ferreira contratou Pavlovic para decorar a igreja, construída em 1928. O trabalho do esloveno foi finalizado após três anos, em 30 de outubro de 1945. "Uma de suas obras primas é a Pietá que pontifica sobre o altar mor do templo de Avaré, marco do patrimônio cultural da cidade", relata Geisel no livro "Vida e Arte" sobre o período que o esloveno residiu no município.

Os trabalhos do artista na igreja de Pirajuí tem um interesse especial, porque foi a cidade onde ele veio quando deixou a Europa. De acordo com o blog de Angelica Zoqui Paulovic Sabadini, mostra tanto sua habilidade artística quanto toda a influência do "Fin-de-Siècle" de Viena. "É a última amostra de seu estilo anterior, onde se pode ver algumas técnicas comuns a Oscar Kokoschka. Dor e arrependimento é expressado em seu trabalho. É preciso conhecer os trabalhos de Kokoschka anteriores a 1914, para apreciar completamente o valor artístico desta Igreja", consta no material divulgado. O blog ajuda a resgatar a obra de um artista que vem sendo esquecido, apesar de ter uma vasta obra.

Pavlovic era adepto da pintura mural, do qual se inspirava nas decorações do Museu de História da Arte (Kunsthistoriscches) e do Teatro Nacional Austríaco (Burgthetaer), ambos em Viena, onde se formou, conta Geisel Jr.

A história do esloveno é admirável. Durante a 1.ª Guerra Mundial, ele foi capturado e preso pelo exército russo, o que lhe garantiu um tratamento diferenciado, relata Gesiel Jr. Ele estudou pintura e escultura na Escola Superior de Artes Aplicadas, em Viena, na Áustria. 

O artista morreu aos 89 anos em 21 de setembro de 1981, em Oriente região de Marília e foi sepultado no Cemitério Municipal.

Blog destaca lista de obras

As fotos de afrescos e painéis feitos por Franciscus Pavlovic é possível de ser visualizada em um blog sobre o artista e material na wikipédia. O jornalista Geisel Júnior também dedica um capítulo no livro "Avaré em memória vivia - volume I" sobre o esloveno. O artista residiu durante três anos em Avaré, quando fez a decoração do Santuário Arquidiocesano de Nossa Senhora das Dores.

Quem quiser conhecer mais detalhes do artista na Internet tem o endereço eletrônico (https://paulovic.zoqui.com/pirajui) com lista de suas obras. A biografia e fotos das obras também estão no endereço eletrônico (https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Pavlovic).

Mestre

O professor-doutor Sidney Carlos Aznar (já falecido) escreveu um artigo sobre o Franciscus Pavlovic que residiu um período em Cafelândia. O artista pintou a Catedral de Santa Izabel, de 1947 a 1950, e nela esculpiu anjos, o “Senhor Morto” e os “Doze Apóstolos”.

Aznar assinala que o artista teve influência europeia (estudou pintura e escultura na Escola Superior de Artes Aplicadas em Viena). “Toda obra pictória religiosa do Mestre Pavlovic, não lembra o pecado, são imagens arquetípicas expressas por ele, oferecendo ao público, momentos de reflexão”.

Outro detalhe que o ex-professor-doutor da Unesp de Bauru apontou na obra são as linhas fortes sempre em contraste à suavidade dos tons de cores utilizados pelo artista. “A primeira fase do Mestre Pavlovic, era marrom, mas não escuro, uma vez que a luz sempre foi uma constante reveladora de seu trabalho, indo buscá-la na escala cromática diacrônica para exaltar o sagrado. Na sua segunda fase, que é pastel a cor dominante, foi a que perdurou até o final de vida. É aqui nesta fase que a cor parece sair como um raio solar cada imagem isolada, dando-lhe profundidade e rompendo a fronteira entre Céu e Terra”.

A obra de Franciscus e a do sobrinho Alberto merecem um estudo aprofundado da academia.

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