A Primeira Vez que Morri
Lembro-me bem. Há nove anos que respirava o vital ar nosso de cada dia. Compartilhava dele com mortais, sem consciência, sem entendimento de seu valor, era jovem demais, havia em mim pouco discernimento sobre os mecanismos da vida.
Assim, a diversão antecedia a tragédia.
Divertia-me em uma pequena piscina do clube local em um dia de temperatura elevada e águas agradáveis.
Mesmo sem saber nadar, acometido de uma coragem tola, sempre conveniente a meninos, aventurei-me no descuido dos meus tutores em direção a piscina olímpica deste clube, e nela pus-me a imitar nadadores, protegido sempre por uma de minhas mãos apoiada nas bordas.
Tudo. O passeio, a brincadeira, a distração e esta tola coragem não passavam de uma armadilha. Fui pego.
Foi assim, aos nove anos de idade desafiei águas maiores do que eu, e sem saber, desafiava também a vida.
Alguém ou alguma coisa não gostava nada da minha arrogância.
Bem, não estou certo de que abrigava, naquele tempo, qualquer arrogância, mas não encontro outra explicação para o fato que se deu.
Num susto, escorregou a minha mão da borda e as águas se encarregaram de me conduzir a seu fundo.
Se havia coragem, inocência ou arrogância, afogaram-se antes do primeiro segundo. Restava eu, somente, atado por águas.
Nos segundos seguintes, retive algum ar em meus pulmões de criança e procurava, na inexperiência, qualquer apoio entre as águas, mas como é certo, não os podia encontrar. Debatia-me.
A partir deste momento, o que se entende por desespero pode ser explicado agora.
Se você quiser compreender melhor, segure a respiração...
Ah!, Quando compreendi...
Nada do que fazia, acrescentava qualquer oxigênio. O ar da vida, a minha ultima porção me deixaria. Todo e qualquer raciocínio perdeu-se e, num grito abafado, soltei a minha pequena porção de ar debatendo-me contra o fundo daquele sarcófago preparado exclusivamente para mim, ao mesmo tempo em que procurava respirar e não respirar, afogava-me.
Mas para morrer afogado, o desespero não basta, é necessário desistir.
Naqueles dias havia vida demais em mim. Eu não sabia desistir.
É com propriedade que afirmo: quanto mais criança, mais vida se tem.
A morte trata-se sempre de uma armadilha.
Eis como morri afogado:
Encontrei-me envolto d'águas, desesperei-me e travei bravamente uma luta inútil pela sobrevivência. As minhas forças foram-se todas.
A água parecia beber-me.
E somente quando desisti, inalando e ingerindo toda a água possível à força dos pulmões, é que a tormenta cessou.
Acalmei-me completamente e passei a flutuar tranquilo.
Chega um momento, que não é a sobrevivência que procuramos, mas o fim da tormenta.
E com paz me recebia a morte, libertando-me dos temores da vida.
Este é o último sentimento de que me lembro.
Assim foi a minha primeira morte.
Enquanto eu me permitia morrer, o chão era abalado, o ar era cortado e a água rasgada, um homem corria, saltava e mergulhava a meu encontro. Este homem retirou-me das mãos da morte.
Fui trazido de volta à vida e nem sei o nome do herói que me salvou.
Veja: a morte, a vítima, o herói e a vida estavam no mesmo lugar naquele dia.
Por vezes, quando isso acontece, é possível morrer e ressuscitar.
Bsal
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