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A Literatura no Trovadorismo

A Literatura nas Vanguardas Européias

A Primeira Época Medieval é caracterizada pelo Trovadorismo. A cultura trovadoresca iniciou-se no período feudal, entre os séculos XII e XIII, quando da consolidação de Portugal como um reino independente.

Cantiga da Ribeirinha ou Cantiga de Guarvaia, que constitui o mais antigo documento da literatura portuguesa. Esta cantiga, ainda composta em galego-português, foi dedicada a D. Maria Pais Ribeiro, uma dama da corte.

“No mundo non me sei parelha,
mentre me for como me vai,
cai já moiro por vós – e aí!
mia senhor branca e vermelha,
queredes que vos retraia
quando eu vos vi em saia!
Mau dia me levantei
Que vos enton non vi fea!
E, mia senhor dês aquel di’, ai!
me foi a mi mui mal,
e vós, filha de don Paai
Moniz, e bem vos semelha
D’haver eu por vós guarvaia,
Pois eu, mia senhor, d’alfaia
Nunca de vós houve nen hei
Valia d’ua correa".


Até esse momento, os poemas e as narrativas eram transmitidos oralmente, ficando gravados apenas na memória dos ouvintes.
A lírica trovadoresca, como também é chamado esse período literário, terminou em 1418, quando Fernão Lopes foi nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, responsável pela conservação do arquivo do reino, dando início ao Humanismo.

O reino de Portugal se constituiu no século XII, sob a liderança de D. Afonso Henriques, que teve êxito nas lutas de independência contra Castela.
A literatura portuguesa nasceu em pleno regime feudal, que constituía na estrutura social dominante na Europa da Idade Média. A sociedade feudal baseava-se num princípio de obrigações recíprocas entre os proprietários de terras (suseranos) e os que trabalhavam em suas terras (vassalos).
Os senhores feudais eram em sua maioria constituídos pelo clero, o rei e a nobreza. A grande nobreza, aliás, detinha o direito de conceder feudos a outros nobres (pequena nobreza).
A Igreja exercia um poder quase tão absoluto quanto a nobreza, exigindo obediência irrestrita às suas normas e determinações e impondo uma visão teocêntrica do mundo, o que influiu em todas as esferas da atividade humana.

Influência

O espírito religioso que caracterizou a Idade Média erigiu monumentos, como as catedrais góticas, com seus vitrais coloridos e seus afrescos nas paredes, em que artistas geniais como Fra Angélico e Giotto pintaram formidáveis cenas bíblicas.


No início da era cristã, a literatura, principalmente a poesia, estava quase que exclusivamente voltada para o culto religioso. Para facilitar a memorização de fórmulas dogmáticas e de preces, a poesia sacra introduziu a versificação rimada no Ocidente. A lírica greco-romana não fazia uso de rima, embora a figura retórica do homeoteleuton (mesma desinência), dela se aproximasse.
A literatura fora dos conventos, mosteiros e abadias desenvolveu-se em um idioma híbrido, utilizado entre os séculos XII a XIV, o galego-português, que consistia numa mistura da língua da Galícia com a de Portugal. Essa literatura leiga foi constituída pela poesia trovadoresca e pelas novelas de cavalaria. Além do galego-português, os primeiros trovadores portugueses também compuseram suas cantigas em dialeto provençal.
A tradição oral também preservou algumas narrativas de aventuras extraordinárias de heróis ousados e corajosos, que foram registradas nas chamadas novelas de cavalaria.

Foi de Provença, região situada no sul da França, que veio a nova moda poética,que consistia na composição de poemas para serem cantados. A Provença, onde se falava a lang d'oc, é considerada o centro de irradiação do lirismo ocidental. Daí, os trovadores espalhavam-se pelas cortes da Europa, divulgando sua arte poética, de cunho marcadamente individualista, exaltando os encantos da natureza e as virtudes da mulher amada, a quem prestava um serviço, submetido a um código de obrigações, que exigia o segredo sobre a identidade da dama e a mesura, que implicava o autodomínio sobre as emoções.

Todos os textos poéticos dessa primeira época medieval eram, aliás, acompanhados de música e de coro. O trovador (poeta) compunha a letra e a música e, o jogral (menestrel), acompanhado de alaúde, flauta, harpa ou lira, se encarregava de exibi-las. Geralmente, eram cantigas líricas, em que o sentimento amoroso predominava. Os trovadores costumavam pertencer à pequena nobreza, embora alguns reis tivessem sido poetas.

Os trovadores portugueses mais importantes foram, além de Paio Soares de Taveirós, que lançou a pedra fundamental da literatura em língua portuguesa, Martim Codax, João Garcia de Guilhade, Airas Nunes, Afonso Sanches e Bernardo de Bornaval.

O tema mais constante da poesia trovadoresca foi o amor impossível já que, normalmente a dama ou era casada ou pertencia a uma classe superior à do trovador. Como esse amor nunca se realizava, convertia-se em admiração, em exaltação das virtudes da mulher desejada. Por ser um relacionamento semelhante ao do senhor feudal com seus vassalos, esse amor impossível ficou conhecido como vassalagem amorosa. Essas características justificam a presença de um forte lirismo representado pela “coita d’amor” (coitado, em galego-português, representava apaixonado, aflito, sofrido).

Evidenciava-se no espírito do trovador um estado de tensão entre o real e o ideal. Enquanto de um lado a idealização da beleza física e espiritual da amada atraía quase que irresistivelmente o poeta, do outro lado, a condição social muito mais elevada do objeto de seus sonhos criava um abismo que impedia qualquer possibilidade de aproximação.

Para o entendimento dessa concepção revolucionária do amor ao mesmo tempo espiritual e adulterino, surgiram várias teses, apresentadas por Natália Correia em seu ensaio introdutório à publicação dos Cantares dos trovadores galego-portugueses. A tese mais sugestiva é a apoiada no antigo mito do Andrógino ou Hermafrodita, o ser bissexuado, o arquétipo humano anterior à separação do elemento masculino do feminino. A Grande Mãe partenogenética representa o princípio estável em cujo seio o filho é gerado, que é o princípio estável, pois nasce, morre e renasce. De outro lado, a figura do homem poderoso, mitificado em Júpiter, representa o princípio do autoritarismo, personificado no pai, no marido ou no governante.

A gênese da concepção revolucionária do amor trovadoresco é encontrada em um sentimento anterior ao sexo, sendo a mulher concebida como mãe, em quem a criança sente residir o princípio da segurança para a sua conservação. Essa estratificação infantil de segurança encarnada na mãe, projeta-se na vida adulta, toda vez que o homem se sente angustiado pela opressão das forças sociais que ameaçam o seu direito à liberdade ou põem em perigo a conservação de sua individualidade.
A exaltação das virtudes da mulher idealizada representaria, a nível do inconsciente coletivo, o desejo de reconquistar a força do ser andrógino arquetípico, para poder lutar contra a opressão das instituições políticas e sociais patriarcalmente estruturadas.
O servilismo do trovador em relação à dama representa o amor cortês, uma expressão de duplo sentido, podendo ser o amor educado e comedido ou o típico amor da Corte.

Extrutura

Embora as cantigas trovadorescas pareçam primitivas e espontâneas, utilizavam requintados recursos formais, principalmente nas cantigas de amor, que desapareceram junto com a moda do trovadorismo. Desses recursos, os mais freqüentes foram:
fiinda – estrofe de estrutura própria, embora ligada pela rima ao resto da estrutura, servindo-lhe de remate
atafinada – ligação do final de um verso diretamente ao seguinte, sem interrupção do sentido ou do ritmo
palavra – qualquer verso
palavra perduda – versos brancos
cobras singulares – estrofes com rimas próprias
cobras uníssonas – estrofes com rimas comuns
dobre e mordobre – designavam a repetição de uma ou mais palavras dentro de uma estrofe
leixa-pren – (deixa-prende) recurso formal que consistia em apanhar o último verso de uma estrofe e iniciar com ele a estrofe seguinte, ou inteiro ou com alguma variação. Este recurso não era válido para os versos do refrão
tenção – cantigas dialogadas

Os trovadores cultivavam dois tipos de cantigas lírico-amorosas: a cantiga de amor e a cantiga de amigo. A cantiga de amor apresentava uma declaração amorosa de um homem para uma mulher; a cantiga de amigo consistia na declaração amorosa de uma mulher para um homem.
Ao lado das cantigas amorosas tinha-se um outro tipo de cantigas, as satíricas, subdivididas em cantigas de escárnio, onde a pessoa visada era ridicularizada, e as cantigas de maldizer, com o mesmo propósito.
Cantigas de Amor
As cantigas de amor, direcionadas do homem para a mulher, retratavam o sentimento amoroso masculino. Consistiam em cantigas lamentativas, de um amor declarado inatingível. Nas cantigas de amor o trovador se dirigia com vassalagem amorosa à dama que adorava, tratando-a de “mia dona” ou “mia senhor”. Mostravam uma louvação constante da beleza da mulher. Embora originárias da Provença, as cantigas de amor portuguesas ganharam nova dimensão e maior sinceridade.
A estrutura da cantiga de amor seguia sempre um determinado padrão: as estrofes sempre tinham um número determinado de versos (geralmente entre dois e cinco), apresentavam, muitas vezes, estribilho e refrão e a métrica era bem marcada. À repetição do estribilho e do refrão, com temática única, dá-se o nome de paralelismo.

Cantigas de Amigo

Sendo mais antigas do que as de amor, eram mais espontâneas e menos elaboradas do que as cantigas de amor e apresentavam origem autóctone. O homem amado recebia o tratamento de “meu amigo”. Embora escritas por um trovador, o eu lírico era uma mulher apaixonada. O tema consistia, geralmente, no choro e lamento de uma mulher do povo com a ausência de seu amado, que a abandonou para lutar como cavaleiro ou por outra mulher. As cantigas de amigo traziam a presença constante de um refrão e paralelismo (A – B - refrão, A – B - refrão, B – C - refrão, B – C - refrão, C – D - refrão, C – D - refrão) e, de acordo com os assuntos de que tratavam, poderiam ser classificadas em:
pastorelas - assuntos campestres, diálogo com a natureza.
romarias - assuntos relacionados às festas religiosas.
barcarolas - assuntos relacionados ao mar, rios e lagos.
bailias - assuntos ligados à dança.
Outro aspecto interessante das cantigas de amigo é que, além da mulher que sofria, apresentavam outros personagens que serviam de confidentes, como a mãe, uma amiga ou um elemento da natureza personificado, montando-se uma estrutura de diálogo.
A cantiga de amigo apresentava um aspecto mais dramático do que lírico, porque, na produção poética primitiva de qualquer povo, o gênero lírico encontra-se vinculado ao narrativo e ao dramático.

Cantigas Satíricas

Podem ser consideradas como painéis do cotidiano. Podiam ser escritas em prosa ou em verso e sempre zombavam de alguém: de uma pessoa decadente, de uma pessoa que passou por um problema amoroso, uma mulher namoradeira, os representantes do clero que acumulavam riquezas ou tinham amantes e todos os maus profissionais. Apresentavam uma linguagem pouco criativa e bastante descuidada, com palavras de duplo sentido, a ironia e a hipérbole, além de gírias e palavrões.
As cantigas de escárnio traziam uma linguagem mais velada do que as cantigas de maldizer, que apresentavam uma sátira mais direta, sem nenhuma camuflagem. A diferença entre ambas, no entanto, nem sempre é muito clara.

Cancioneiros

Representam as antologias ou conjuntos de textos onde se encontram as cantigas do trovadorismo português, sendo identificados pelos nomes das bibliotecas a que pertencem. Os cancioneiros mais importantes são o Cancioneiro da Ajuda (composto durante o reinado de Afonso III, no século XIII, contendo apenas cantigas de amor), o de Collocci-Brancutti (ou da Biblioteca Nacional, englobando trovadores dos reinados de Afonso III e D. Dinis) e o da Biblioteca da Vaticana (descoberto na Biblioteca do Vaticano, inclui todos os tipos de cantigas e contém uma produção do século XVI).

A Prosa ficcional

Durante o século XIII, no reinado de Afonso III, apareceram as novelas de cavalaria, originárias das canções de gesta francesas.

As festas e solenidades religiosas da época duravam vários dias, alternando-se as atividades religiosas com as apresentações artísticas, com um espaço para as narrativas de lendas e aventuras heróicas. Essas narrativas eram reproduzidas oralmente desde tempos remotos, passando de geração a geração e de região para região, conhecidas como novelas. Representam a primeira manifestação em prosa da língua portuguesa.

Houve três ciclos diferentes de novelas na Idade Média: o ciclo clássico, que versava sobre episódios e heróis da Antigüidade greco-latina; o ciclo arturiano ou bretão, que versava sobre os feitos da corte do rei Artur; e o ciclo carolíngio, que versava sobre Carlos Magno e sua corte. As obras pertencentes a esses últimos dois ciclos recebem o nome de novelas de cavalaria.

Essas novelas consistiam de extensos relatos sobre personagens que se destacavam por seu heroísmo, coragem e lealdade, de acordo com os padrões católicos, com a castidade e a disposição de qualquer sacrifício para defender a honra cristã como paradigmas. As novelas de cavalaria mais importantes são Amadis de Gaula e A Demanda do Santo Graal.

Causas da decadência do Trovadorismo

As três principais causas da decadência do Trovadorismo são as seguintes:
Decadência do mecenatismo real - até a metade do século XIV, os reis portugueses mantinham os jograis, os menestréis e os soldados. Por volta de 1366, D. Pedro I foi o responsável pela extinção do lirismo trovadoresco que, aliás, já entrara em decadência na França.
Aburguesamento de Portugal - com a Revolução de Avis, no final do século XIV, Portugal apresentou uma profunda modificação em sua estrutura econômico – social, tornando a arte trovadoresca, essencialmente palaciana, incompatível com a nova realidade portuguesa.
Conflitos entre Portugal e Espanha - a partir do reinado de Afonso IV, as tensões nas relações entre as duas nações ocasionaram uma separação literária e lingüística, abandonando o que era feito em comum.