O Buick Cabriolet
Índice de Artigos
O pós-guerra foi um tempo de reconstrução, e retomada do desenvolvimento. Muitas oportunidades surgiram, dentre outras a de se descobrir preciosidades automobilísticas, na maioria das vezes guardadas sobre cavaletes, empoeiradas, em estado de 0 km.
Eram automóveis fabricados antes, e durante a guerra, que não foram usados porquê restrita a venda de gasolina.
Na época, para o uso do automóvel, quem se dispusesse teria de adaptar um aparelho de gasogênio. Esse aparelho era uma verdadeira “mangonga”. Gerava um combustível extraído da queima do carvão e, ou tudo o mais que pudesse transformar-se em gás.
Montado na traseira do carro, tinha pouca autonomia e o inconveniente de tornar os passageiros em autênticos carvoeiros.

Esses carros eram todos importados comprados de encomenda, pago por antecipação. Quem comprou e não queria usá-lo com o gasogênio, só tinha um remédio: guardar .
Inúmeras eram as marcas, dependendo do país de origem . Se da América do Norte , podia ser Cadilac, Lincoln, Oldsmobil, Buick, Chevrolet, Pontiac, Plimoth, Dodge , Craisler, Pakard, Studbeker, Willis, Hudson, Ford e outros.
O caso ora narrado ocorreu com um Buick Cabriolé, modelo 1940 de quatro portas, cor vinho, capota de lona, rodas raiadas, motor de 8 cilindros em linha; uma preciosidade.
Corria o ano de 1947, quando uns amigos se dispuseram a comprar e revender esses modelos de automóveis.
Alternadamente viajavam para o interior dos estados, buscando nas fazendas de pessoas de boa posse, principalmente naquelas que foram inventariadas por falecimento do proprietário, essas joias, esquecidas no tempo, em total desprezo .
Numa cidade no Rj., havia um padre italiano de nome Giovane.
Eles iam frequentemente a essa Cidade, encontrar com um morador e grande fazendeiro muito chegado à Igreja, mas que nem por isso livrava a cara dos padres; desde que fosse para ganhar algum dinheiro, ele estava em todas!
Haveria no Rio de Janeiro, um Congresso promovido pela Igreja.
Padre Giovane, sabedor das transações do grupo, com automóveis, encomendou ao João, seu paroquiano, um bom e confortável carro, capaz de transportar seus compatriotas e familiares, esperados para o evento.
João, veio ao encontro dos amigos, fez a encomenda, observando que o padre Giovane tinha um excelente Ford modelo 1936 que era para entrar no rolo (expressão troca) .
Foi mandado um emissário, de bom bico, - o Doca, levando um Pakard muito bonito, estofamento de fábrica impecável, pintura, idem, idem; porém o motor estava um tanto desgastado porque havia utilizado o comburente gasogênio.
Padre Giovane exigiu experimentar o Pakard por uns três dias, condição única para dar seu Ford e mais 2.000 de volta.
Dinheiro da Paróquia, dizia ele, juntado com muito esforço!
O Doca, aceitou, tendo voltado sem o carro e sem o troco.
Nem completou os três dias, veio à notícia:
- Padre Giovane está com o Pakard, quebrado na estrada, e manda buscar socorro!
Mandaram rebocar o Pakard e ficarão com o prejuízo. Porém, o João que esperava dar uma mordidela na transação, tratou de comprometer o Padre pela quebra do carro.
Nada conseguiu, senão o compromisso de que só compraria o veículo, com esses vendedores, os próprios, desde que agissem com rapidez, porque os parentes estavam pra chegar.
Os amigos saíram em campo, procurando com os concorrentes, e foram encontrar na localidade - Lote 15 , Caxias, um Buick “Cabriole”, novinho em folha, trazido do interior de Minas Gerais .
Puxaram o negócio, e a coisa ficou muito fácil. Fácil demais, porque aquela preciosidade, justa e feita para a satisfação do padre Giovane custava apenas CR$350,00 .
Desconfiados, os compradores passaram a examinar, como uns raios-X, os documentos e o estado do veículo. Quanto mais examinavam, mais convencidos ficavam da excelência do carro – e comentaram entre eles: - o Pepeu é um besta, porque se pedisse CR$2.000,00 pelo Buick, nós pagaríamos .
Pepeu, discretamente assistia a surpresa com um indisfarçável sorriso, perguntando :
- Então , negócio fechado ?
Tá fechado, responderam .
Pepeu, numa advertência disse:
- Não aceito reclamação !
Então indagaram :
Esse carro tem bronca? seja sincero.
Pepeu respondeu:
- Nunca comprei um usado, mais novo e inteiro do que esse !
Então, vamos levar; tá aqui a grana, passe o recibo em nome de Padre Giovane Paschoaleto . A única coisa que pedimos, se você puder, é que o recibo seja de CR$3.500,00, porque o Padre tem de prestar certa conta com a Paróquia, e nos pediu assim.
Pepeu não relutou. Embolsou o dinheiro e entregou o recibo com a quantia estipulada, tendo preenchido os dados na hora, porque estava tudo em branco, acompanhado de um alvará de espólio, devidamente legalizado.
Os compradores entraram no Buick, rumaram para o Rio de Janeiro.
Na viagem, nenhuma dúvida restava:
- O carro era uma coisa rara!
Chegando ao Rio, pediram a um amigo, o Pires, dono de uma pequena frota de ônibus, para deixar o Buick guardado em sua garagem, que era coberta, tinha vigia e toda uma estrutura.
Ele consentiu, manobrou o carro, deixou ao lado do escritório, no interior da garagem.
No dia seguinte foram retirar o possante. Havia um movimento estranho, e tomaram conhecimento que foi visto o ladrão de gasolina, há muito procurado, que roubava o combustível, retirando do tanque dos ônibus, ora reconhecido pelo vigia, como sendo um padre, visto sentado na parte traseira do Buick .
O Vigia contou o episodio, dizendo que quando foi render o bandido - o suposto padre -, este vociferando mandou-lhe afastar-se, dizendo que era o dono do Buick; que o respeitasse e lhe pedisse a benção, pois era o Cônego Serafim.
Contou mais :
Havia feito três disparos, um dos quais atingiu o banco traseiro do Buick.
Como o tal Cônego não arredou pé, ele foi para a rua pedir ajuda aos guardas noturnos, de ronda no bairro .
Assim os proprietários retiraram o Buick, e quando iam saindo eis que apareceu o Pepeu (vendedor).
Ele tomou conhecimento do movimento e disse:
-Vocês acham que eu fui besta vendendo esse carro tão barato? Pois bem: ninguém conseguiu viajar nesse carro após as 18:00 hs., porque o Cônego está sempre sentado no banco traseiro.
Esse carro já foi vendido e devolvido por duas pessoas, uma das quais se atirou na estrada, batendo no barranco. Veja a marca no pára-choque dianteiro, lado direito!
De fato, embora o para-choque fosse de aço especial, havia uma marca de batida.
Logo os circunstantes estabeleceram comentários, dos mais variados, havendo alguns que afirmavam ser um golpe do Vigia; outros acreditavam, e acrescentavam experiências vividas.
Os, proprietários do Buick, não deram maior importância ao fato sobrenatural, porque não tinham a intenção de usar o Cabriolé. Pelo contrário, tinham de correr para entregá-lo ao padre Giovane, e esperar que se agradasse.
Afinal, comentaram:
-Questões com almas, ninguém melhor que um padre para resolver!
Em seguida, embarcaram no Buick e rumaram.
Ainda não era meio dia quando chegaram. Foram direto para a casa Paroquial, levando o João, que nada sabia, e nem queria saber, senão sobre a comissão na transação.
Padre Giovane recebeu os vendedores com um sorriso, de canto a canto da boca, e sem perda de tempo pediu as chaves, saindo para experimentar o Cabriolé.
Demorou umas três horas até que voltasse. Os vendedores já estavam desesperados, imaginando que havia acontecido algum acidente. Quando o avistaram o Padre, vindo piscando os faróis, tiveram a certeza de que tudo havia corrido bem, e que o negócio estaria costurado logo, logo.
O Padre mal podia conter-se de contentamento. Disse que foi experimentar o carro, subindo até Petrópolis, e concluiu:
- Levem meu Ford e dou os CR$2.000,00 de volta!
Tá fechado ...! Apertaram as mãos e ele foi buscar a grana, em espécie.
Pagaram à comissão do João, entraram no Ford, e... pé na estrada.
Três dias se passaram, quando João veio trazer a notícia de que o padre Giovane, de tão contente, estava com o juízo destemperado, afirmando para alguns paroquianos que com o carro adquirido, veio também um Cônego que dizia chamar-se Serafim, e aparecia sempre após as 18h00m, sentado no banco traseiro do Buick, quer em viagem, ou mesmo estacionado na garagem.
Não me perguntem nada. Assim ouvi, aqui relato!
Vovô Dila
- /index.php/salas/literatura/23-genero-narrativo-conto/574-sonho-apocaliptico
- /index.php/salas/literatura/23-genero-narrativo-conto/541-tudo-e-possivel-ao-que-cre






