O Vilarejo Solar

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Oram comprou uma passagem para Terra. Ele nunca planejou uma viagem tão longa, mas seu desejo era ir o mais distante possível de casa. Recém-inaugurada, a rota tinha pouca procura, o que a tornava perfeita.  Deixou seu futuro em suspensão. Até logo, Plutão.

Sonhou com areia e gelo, Caronte banhada em vermelho. Seus desfiladeiros profundos, o Sol frio e distante. Nada que lembrasse a Guerra das Cinco Luas. Voltou ao lugar em que conhecera Xion. De repente, um grito, uma explosão. Despertou pra solidão.

Lembrou de sua emancipação, de como se preparou para o desafio de Hidra. O juramento que fez a uma jovem Nix. O pensamento se quebrou em arrependimentos.

Aprendeu o básico de português. Oram gostava de marginalizados, de minorias. Imaginou que haveria um mundo dentro do mundo. Não gostava de viagens superficiais, preferia conhecer um único lugar. Logo se interessou por música regional. Tribalistas?

Escolheu ser negro. Quis corpo de mulher. Aventurou-se pelo interior do país, foi ser canção. Virou amante das manhãs, esposa das tardes e mãe enluarada. Fez morada junto ao rio. Despediu-se dos filhos, dos netos, dos bisnetos, até que se despediu da Terra.

Sonhou com chuva e bolo, cheiro de arco-íris no horizonte. Pés descalços na terra úmida e toque. Quente, suave, acolhedor. Lembrou das dores de amor, dos risos coloridos, dos rios do destino. Voltou a ter peso, a ter fim. De repente em repente foi relembrando toda história. Um aviso, um pouso e se despediu da solidão.

Um ciclo depois, Oram foi honrar a memória de Xion. Foram 248 anos terrestres, na tentativa de entender o vazio. Mais do que causos, a música foi o que marcou. Silêncios seguidos de notas, um ressignificando o outro. E antes de ir, ele pegou o violão e cantou a promessa: “Há um vilarejo ali, onde areja um vento bom…”

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