A Velha Canibal
Existia uma tribo resguardada por verdadeiras paredes de cipós embrenhados em espinhos e vegetais dos mais variados da mata virgem, no interior do Amazonas.
Nesta aldeia vivia um povo com costumes bem particulares. Embora fossem hábeis conhecedores dos recursos da selva, no que diz respeito à aplicação útil dos vegetais, espécies dos peixes, insetos venenosos e comestíveis, animais diversos e raros, nunca trabalhavam.
Capazes de identificar a idade de uma árvore de cinco mil anos ou se choveria em exatamente duas horas, utilizavam-se do conhecimento no dia-a-dia. Quando tinham fome, comiam da fruta da árvore mais próxima; quando sentiam calor, banhavam-se no rio; quando sentiam frio, aqueciam-se uns aos outros; quando alguém machucava-se ou tinha um filho, utilizavam-se das ervas; quando encontravam-se cansados ou com sono, descansavam ou dormiam aonde estivessem; e assim viviam em harmonia.
Tudo o que conheciam foi ensinado pela velha canibal.
A idosa ensinou-lhes também que deveriam devorar seus mortos, para fortalecerem o espírito e exterminarem qualquer ligação do ente querido com o velho mundo, e desta forma os libertarem para uma nova vida ou eles morreriam completamente. Por isso comiam eventualmente carne humana com a dança da despedida. E sempre ressalvava que isto deveria ser feito com o cuidado de nunca comerem a mãe de todos os aldeões, pois se isto acontecesse, todos morreriam.
Dias de despedidas eram dias tristes, e não havia, nos aldeões, prazer em comer carne humana, tratava-se apenas de obrigação da aldeia e por isso não se consideravam canibais.
Até onde sabiam a velha sempre existiu, pois todos na aldeia, velhos e jovens foram trazidos a vida pelas mãos da idosa; era conhecida como velha canibal, pois era a única pessoa da tribo que nunca comia vegetais ou qualquer coisa diferente de carne; seu rosto era bastante enrugado, seus compridos cabelos totalmente brancos, suas pernas eram repletas de deformadas varizes coloridas e andava um pouco curvada por causa dos anos, mas não era lenta, ao contrário, movia-se rapidamente, tinha sua lucidez intacta e quando estava aborrecida falava em um idioma desconhecido.
Embora fosse cega, nunca precisou da ajuda de qualquer aldeão, nem mesmo bengala usava. Parecia conhecer cada trilha, cada árvore, cada ser vivo da floresta e até aos predadores ignorava e não os temia.
Quando um predador decidia atacá-la, era afugentado pelo grito estridente da velha canibal e quando o mesmo a reencontrava, não ousava atacá-la novamente.
E assim reinava, mesmo sem saber, esta velha canibal.
Como a velha sabia onde descansavam os peixes, pegava-os sempre que tinha vontade, mas o seu maior prazer era comer carne de cobra.
Nunca souberam como ela podia pegar e comer cobras venenosas, mas como a respeitavam por sua profunda sabedoria, não a interrogavam sobre algo que não quisesse falar.
Sempre que queria, a velha canibal encontrava cobras para comer. E com o seguinte procedimento as capturava: Colocava uma das pernas próxima a cobra e quando esta a mordia ela a capturava.
Quanto ao veneno, parecia ficar retido nos intervalos de suas tortuosas veias dilatadas e interrompidas por sua deformidade e, eventualmente, com o seu andar, parte do veneno era expelido pelo mesmo buraco da mordida. Bem, se não era bem assim, mais um mistério a envolvia, o fato é que a velha não morria envenenada, pois usava deste artifício há muitos anos.
Na estação das flores, quando os pequenos curumis brincavam de perseguir borboletas azuis e se distanciavam da aldeia, encontraram sua velha tutora adormecida ao pé de uma antiga árvore e tentaram despertá-la como sempre faziam, por orientação da própria curumba. Um dos meninos percebeu que não havia vida na velha canibal e como todos os curumis entendessem ao mesmo tempo, prantearam com profunda dor a morte da velha canibal.
Ao recomporem-se, sabiam que precisavam avisar ao povo da aldeia, ficando dois meninos guardando o corpo sem vida da velha, os outros correram com a missão mais importante de suas vidas, a de dar esta terrível notícia aos aldeões. Entraram chorando e gritando na aldeia: “a velha canibal morreu! A velha canibal morreu!...”
Embora não praticassem a mentira, muitos, pela primeira vez, tiveram dificuldade de crer, pois não acreditavam que a velha canibal morreria algum dia.
E em grande confusão toda a aldeia dirigiu-se a grande árvore, e um a um pôs-lhe a mão para verem por si mesmos que a velha canibal havia deixado a vida e grande foi a dor daquele dia.
O dia seguinte era o dia da despedida e consequentemente, o dia em que por costume, comia-se a carne da pessoa falecida.
Porém o ritual não tinha início, havia muito lamento e questionamentos diversos. Os aldeões estavam muito confusos quando os dois sábios trouxeram uma questão inevitável.
Um disse que ninguém e nem mesmo os seus avós haviam visto a velha canibal nascer, talvez ela fosse a mãe de todos.
O outro lembrou que ela mesma havia orientado a todos, que não comessem a mãe de todos os aldeãos, pois se isso acontecesse certamente todos morreriam.
E ao meditarem nestas palavras, os anciãos pronunciaram-se e disseram que, embora a velha canibal nunca tenha nominado a si mesma como mãe de todos, estas palavras eram sábias e acreditavam inteiramente agora que a velha canibal era de fato a mãe de todos.
Houve silêncio. Todos olhavam para o chão e cada um lembrou-se dos preciosos momentos que tiveram com aquela mulher e tudo o que aprenderam.
E um dilema estabeleceu-se. Se esta boa mulher, a quem deviam tudo o que sabiam, era a mãe de todos, certamente morreriam se a devorassem, porém, se não a devorassem ela morreria completamente, sem ter qualquer chance a uma nova vida.
E todos se entristeceram, porém as borboletas azuis retornaram e ficaram como que dançando em torno da velha canibal. Os curumis imediatamente começaram a dançar com as borboletas.
Vendo isto, todos os aldeãos, de forma natural, sabiam o que fazer.
Os velhos começaram a dançar onde estavam; os sábios alegraram-se e cada aldeão ajudava nos preparativos.
Ao acabar pelos pés de limpar o corpo da velha com o óleo da oliveira, o ancião mais antigo, mordeu-lhe os tornozelos e logo os outros anciãos morderam-lhe pés e coxas. Ao invés de apenas sangue, escorria também de suas pernas um líquido transparente pelo corpo, e os velhos despediram-se com lágrimas e alegria retirando-se para adormecerem as margens do rio.
Depois disto, todos queriam honrar a boa velha canibal, repartindo uns com os outros a carne da sagrada mulher.
E em alegria foram parando de dançar e retirando-se para algum lugar particular com os mais chegados.
E como se a profecia fosse verdadeira e se cumprisse, todos os aldeões deixaram a vida naquele dia.
Bsal
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