O Rouba Livros - Continuação

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Toda revista, livro e até manual que achava, limpava e dava ao menino.

Passado algum tempo, sentindo-se cansado dos anos, preocupou-se com o menino, que já estava com seis anos e vendo que não possuía nada para deixar-lhe, caso lhe acontecesse algo, decidiu dar-lhe a única coisa que lhe restou, um pouco de cultura. Passou a ensinar a criança a ler, como o menino gostava das imagens e das letras, aprendeu rapidamente.

O velho lhe disse um dia: “nesta vida tudo é passageiro, o dinheiro, os bens, os anos e até a saúde. Veja, todos me abandonam, menos a cultura e isso lhe dou”.

Dito isto, passou a falar-lhe dos lugares, dos sábios, dos filósofos e dos simples, falou sobre as invenções, das doenças e curas, do corpo e do comportamento humano, falou também de guerra e de paz.

Passava o tempo, e não se cansavam. O velho de ensinar sobre os mecanismos do mundo e o menino de aprender. E quanto mais aprendia o aprendiz, mais sede tinha de conhecimento.

Na adolescência voltava pelo final da tarde ao ferro velho, onde agora dormiam. Quis mostrar ao velho o que figurava naquele papel que guardara como último vínculo em sua lembrança com a velha. Naquela tarde também o velho sentia-se demasiadamente cansado e planejava dizer seu nome e dar-lhe um também, pois passou todo esse tempo apenas chamando-o de menino e sendo chamado de velho. Ao aproximar-se o jovem aprendiz da caçamba emborcada de um velho caminhão sob onde dormiam, disse que chegou e trazia comida da feira ao velho, o velho lhe disse que queria falar-lhe algo importante, porém o seu aprendiz precisava achar o livro onde guardava seu valioso papel.

O velho disse que se apressasse, porém demorou-se mais um minuto. Quando achou o livro, foi ter com o velho de dias e foi logo dizendo: “acorda que quero que leia o que minha mãe me deu quando eu ainda era um bebê”. Vendo que o velho não acordava, sentiu a mesma sensação que tivera no dia que a velha falecera, entendeu que seu amigo deixou a vida. Silenciou, sentou-se no chão, abaixou a cabeça a mirar o papel e dando-se conta de que não sabia o nome do velho, chorou até dormir.

Ao acordar viu o falecido sentado em sua poltrona mofada e com um último olhar, despediu-se e foi para uma praia distante meditar.

Não se preocupava com o sepultamento do velho, pois sabia que a própria morte se encarregaria de seu sepultamento, assim como se encarregara do sepultamento da velha mulher.

Aos 14 anos de idade, procurou organizar seus pensamentos e decidiu andar pelo mundo. Como lera todos os livros, revistas e manuais que ganhara desde os seus seis anos de idade, procurou achar alguma literatura pelos lixos do caminho. Chegando ao centro de uma cidade distante e não achando nada, aproximou-se de uma vitrine de livraria, viu muitos livros e pôs-se a ler os títulos. Viu ali, novos autores de que nunca ouviu falar, pois conhecera apenas os clássicos gregos, alemães, franceses, luso-brasileiros e literaturas mais famosas. Interessou-se por um livro chamado “As Línguas do Mundo” de um autor chamado Charles Berlitz, mas não pôde comprá-lo.


Um veículo estacionou próximo à livraria e um jovem saiu de dentro dele com um celular tentando baixar, sem sucesso, um arquivo PDF de um livro que usaria brevemente. Neste mesmo momento a senhora que gerenciava a livraria, vendo o sujo rapaz, deu ordens para afastá-lo, pois estava sujando a vitrine com suas mãos.

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