O Rouba Livros - Continuação...
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Já compreendendo algumas expressões do hindi, escutou essa junção, “rouba livros”. Procurando saber do que exatamente falavam, entendeu esta mistificação entre aqueles indianos, alguns expressavam que se tratava de um espírito que adorava livros e os comia, já outros afirmavam que o espírito odiava livros e por isso os devorava.
Como a crença cresceu entre os indianos, Lúcius passou a procurar pelo Rouba Livros. Desta forma chegava rapidamente ao rastro do suposto espírito devorador de livros.
Sabendo que o Rouba Livros encontrava-se nas adjacências, criou um plano que parecia infalível. Desta vez acharia seu amigo e o levaria para casa, livrando-o de uma possível prisão e suas consequências.
Alugou um estabelecimento, onde fora uma marcenaria. Encontrando ali muita madeira, cortou-as em pequenos formatos e pintou-as sugerindo a idéia de livros em prateleiras. Anunciou na rádio local e nos carros de som a inauguração de uma livraria e que haveria ali uma exposição de livros raros ainda não lidos, durante todo o final de semana.
Acreditando no sucesso de seu plano, preparou-se, naquela mesma noite, para o reencontro com o seu considerado irmão.
E foi o que aconteceu, digo, de fato ele foi.
Lúcius, escondido como estava, enxergava bem a porta de entrada e as janelas. Sabendo que ele era capaz de passar por alarmes e fechaduras, teve o cuidado de fechar portas e janelas.
O ambiente estava à meia luz. Viu uma das janelas movendo-se lentamente e um espectro passar veloz por ela. Lucius não teve dúvidas e desceu rapidamente identificando-se, dizendo que os livros eram falsos.
O Rouba Livros assustou-se ao vê-lo e sorriu, recompondo-se do susto.
Lúcius confessou que errara quando o deixara ir, pois agora sabe que são como irmãos.
O Rouba Livros agradeceu este presente, pois tinha ganhado na vida uma mãe, um pai e agora um irmão.
Lúcius lembrou e disse-lhe que no dia que se separaram teria lhe dado um nome se não o tivesse deixado tão cedo. O Rouba Livros lamentou e disse-lhe que talvez fosse isso que procurava todo esse tempo... .
Mas a própria vida encarregou-se de dar-lhe um nome. Era agora, para os indianos, um espírito devorador de livros e às vezes o era até para ele próprio.
Lucius disse-lhe que não precisava mais viver assim e que poderiam ir para casa agora, mas seu irmão disse que a vida encarregou-se disso também e que o mundo era sua casa. Além do mais, um só país tinha livros insuficientes para ele.
Lúcius sabia que seu irmão, apesar de simples, tinha um conhecimento imensurável.
O Rouba Livros disse que partiria pela manhã, pois havia consumido toda literatura indiana. Aprendera japonês, pois soubera que no Japão havia conteúdos milenares guardados pelo governo e entre clãs.
Dissera ao Lúcius que o mundo e as pessoas são mais simples do que parecem e deixou-lhe seu bem mais precioso antes de desaparecer de sua presença.
Lúcius sentiu-se solitário e sabia que não poderia sequer compreender as palavras de seu irmão, que o homem mais brilhante que conhecera tinha como relíquia uma folha de papel suja.
Tomado de curiosidade repentina, procurou identificar nas ilustrações o que tornava aquele papel tão precioso.
Lúcius ao interpretar o que viu, chorou.
Tratava-se de um velho folhetim com o final feliz da fabulosa história de um antigo escritor italiano chamado Carlo Collodi, “As Aventuras de Pinóquio”.
A ilustração retratava o momento em que Pinóquio deixa de ser um boneco de madeira transformando-se em uma pessoa de verdade.
Bsal
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