O Rouba Livros - Continuação
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Ao se afastar, percebeu que o jovem dono do carro fazia algumas tentativas frustradas no celular e perguntou o que pretendia. Entretido, respondeu, sem olhar, que queria baixar um livro de robótica e não conseguia. O sujo rapaz disse que podia ajudá-lo e imediatamente o jovem aceitou a ajuda. Somente após dar o celular é que percebeu que se tratava de um pivete. Procurando livrar-se daquela situação disse que não se preocupasse e que seria melhor comprar o livro, mas o pivete disse que seu problema estava resolvido, deu uma explicação rápida sobre velocidade de redes acessíveis de celular e que ao trocar a rede, o arquivo fora baixado rapidamente para o seu celular.
O jovem olhou-o curiosamente e resolveu oferecer-lhe um lanche, mas o pivete não aceitou, pois aprendeu com seus velhos a comer apenas o necessário e raramente sentia fome, porém disse que preferia um livro que viu na vitrine. Ainda mais intrigado ficou o jovem que resolveu comprar-lhe o livro.
Apresentou-se como Lúcius e grande foi a sua surpresa quando o pivete respondeu que não sabia seu próprio nome. Foi neste momento que o pivete percebeu que não tinha nome e envergonhou-se.
Despediram-se e Lúcius seguira para a reunião que teria com colegas universitários. Mas naquela noite não pôde contribuir com as pesquisas, pois ficou intrigado com o pivete que era tão pobre que não tinha nem um nome. Os colegas estranharam seus pensamentos ausentes, pois Lúcius era um estudante brilhante, sempre com boas notas e que exercia grande influência entre seus conhecidos.
O pobre rapaz caminhava satisfeito com seu primeiro livro novo enquanto saboreava páginas com um aroma que nunca tinha sentido, aroma de livro novo. Amante como era da leitura, adquirira hábitos como ler vários livros durante o mesmo período, ler andando, ler a distância, ler com pouca luz e a leitura rápida das páginas, pois não interpretava palavras como outras pessoas, interpretava frases inteiras de forma que quando chegou a uma praça iluminada já havia lido um quarto do livro, no capitulo XIII, leu o título “sobrevivência das línguas e através das línguas” e lembrou-se de sua velha e das palavras de seu velho mestre.
“Nesta vida tudo é passageiro, o dinheiro, os bens, os anos e até a saúde. Veja, todos me abandonam menos a cultura e isso lhe dou”.
Agradeceu em seus pensamentos a sorte que teve na vida em ter como pais os seres mais valiosos do mundo e continuou a sua leitura.
Ao terminar de ler aquela interessante obra adormeceu no banco da praça.
Ao acordar teve a ideia de voltar à livraria para tentar trocar o livro. Ao passar pela mecânica, viu um veículo Mercedes Benz MB 280S recebendo uma pintura incompatível com seu modelo. Chegando a livraria percebeu que não seria simples tal troca, pois ao interpretar o movimento do perímetro, viu um guarda a trinta passos da livraria, um casal entrando e a senhora da livraria o mirando seriamente enquanto falava algo com um de seus funcionários. Como sabia ler lábios, viu que a senhora dizia que não o deixassem se aproximar mais, isto é, que chamassem o guarda caso o pivete se aproximasse. Teve a ideia de orientar o lanterneiro com a fórmula exata da tinta e pedir-lhe em troca que o ajudasse na livraria. Então se dirigiu ao lanterneiro, mas este o vendo sujo como estava e com um livro novo na mão, interpretou que ele roubou o livro e que queria também roubar-lhe alguma ferramenta.
Lúcius não dormiu na última noite, de fato ficou impressionado e pensou em reencontrar o pivete. Estacionando próximo à livraria, viu um alvoroço e o guarda algemando o pivete.
Lúcius explicou que tudo não passava de um mal entendido, pois comprara o livro e tinha a nota para provar. Além disso, a senhora o reconhecera.
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